quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

New York by Lou




Caught between the twisted stars
the plotted lines the faulty map
that brought Columbus to New York
Betwixt between the East and Wes
the calls on her wearing a leather vest
the earth squeals and shudders to a halt
A diamond crucifix in his ear
is used to help ward off the fear
that he has left his soul in someone's rented car
Inside his pants he hides a mop
to clean the mess that he has dropped
into the life of lithesome Juliette Bell.

And Romeo wanted Juliette
and Juliette wanted Romeo
And Romeo wanted Juliette
and Juliette wanted Romeo.

Romeo Rodriguez squares
his shoulders and curses Jesus
runs a comb through his black pony-tail
He's thinking of his lonely room
the sink that by his bed gives off a stink
then smells her perfume in his eyes
And her voice was like a bell
Outside the street were steaming the crack
dealers were dreaming
of an Uzi someone had just scored
I betcha I could hit that light
with my one good arm behind my back
says little Joey Diaz
Brother give me another tote
those downtown hoods are no damn goodthose
Italians need a lesson to be taught
This cop who died in Harlem
you think they'd get the warnin'
I was dancing when his brains run out on the street.

And Romeo had Juliette
and Juliette had her Romeo
And Romeo had Juliette
and Juliette had her Romeo.

I'll take Manhattan in a garbage bag
with Latin written on it that says
"it's hard to give a shit these days"
Manhattan's sinking like a rock
into the filthy Hudson what a shock
they wrote a book about it
they said it was like ancient Rome
The perfume burned his eyes
holding tightly to her thighs
And something flickered for a minute
and then it vanished and was gone.

Romeo had Juliette, de Lou Reed
A primeira foto é de Robert Mapplethorpe, a segunda é do próprio.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Vem aí



Rio de ladeiras
civilização encruzilhada
cada ribanceira é uma nação
à sua maneira
com ladrão
lavadeiras, honra, tradição
fronteiras, munição pesada

São Sebastião crivado
nublai minha visão
na noite da grande
fogueira desvairada
Quero ver a Mangueira
Derradeira estação
quero ouvir sua batucada, ai, ai

Rio do lado sem beira
cidadãos inteiramente loucos
com carradas de razão
à sua maneira
de calção
com bandeiras sem explicação
carreiras de paixão danada

São Sebastião crivado
nublai minha visão
na noite da grande
fogueira desvairada
Quero ver a Mangueira
Derradeira estação
Quero ouvir sua batucada, ai, ai.

Estação Derradeira, do senhor Francisco Buarque de Hollanda. Salve a velha Manga.
Foto de Petita

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Partida



Os outros
vão descansar
queridos seres
estranhos
vão descansar
corações forajidos
pulsam
no fundo do mar
nada sabemos
dos objetos
que ficam
no lugar
onde
os corpos estavam
Deus faz girar
o farol
para nos lembrar
os corações
que estão
no fundo do mar
nada sabemos
dos espelhos
do além
enquanto um bamba
passa o dedo
na aba do chapéu
faz do isqueiro
tamborim
sai andando
desce a rua
devagar.

Juan Trasmonte (Todos os direitos reservados)
Foto: Door in the Sky, de Laura KoAn

domingo, 28 de janeiro de 2007

Peter Handke


Quando uma criança era uma criança
Ela andava com seus braços balançando,
queria o córrego pra ser um rio,
o rio pra ser uma torrente,
e uma poça pra ser o mar.
Quando uma criança era uma criança,
não sabia que era uma criança,
tudo era tão cheio de espírito,
e todas as almas eram uma só.
Quando a criança era uma criança
não tinha opinião a respeito de nada,
não tinha hábitos
e sentava-se sempre de pernas cruzadas,
descansando de uma corrida
e tinha o cabelo lambido
e não fazia careta na hora da fotografia.
Quando a criança era uma criança
era a época destas perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui, e por que não lá?
Quando foi que o tempo começou,
e onde é que o espaço termina?
A vida debaixo do sol não é só um sonho?
Aquilo que eu vejo e escuto e cheiro
não é só uma ilusão de um mundo de antes do mundo?
Considerando-se o mal e as pessoas.
A maldade realmente existe?
Como pode aquilo que sou, quem eu sou,
não ter existido antes que eu viesse a ser,
e que algum dia, eu, quem eu sou,
não serei mais quem eu sou?

Quando a criança era uma criança,
mastigava espinafre, ervilhas, bolinhos de arroz,
e couve-flor cozida,
e comia tudo isto não somente porque precisava comer.

Quando a criança era uma criança,
Uma vez acordou numa cama estranha,
e agora faz isso de novo e de novo.
Muitas pessoas, então, pareciam lindas
e agora só algumas parecem, com alguma sorte.
Visualizava uma clara imagem do Paraíso,
e agora no máximo consegue só imaginá-lo,
não podia conceber o vazio absoluto,
que hoje estremece no seu pensamento.

Quando uma criança era uma criança,
brincava com entusiasmo,
e agora tem tanta excitação como tinha,
porém só quando pensa em trabalho.

Quando uma criança era uma criança,
Era suficiente comer uma maçã, uma laranja, pão,
E agora é a mesma coisa

.……………..
………………..
Quando uma criança era criança,
amoras enchiam sua mão como somente as amoras conseguem,
e também fazem agora,
avelãs frescas machucavam sua língua,
parecido com o que fazem agora,
tinha, em cada cume de montanha,
a busca por uma montanha ainda mais alta,
e em cada cidade, a busca por uma cidade ainda maior,
e ainda é assim,
alcançava cerejas nos galhos mais altos das árvorescomo,
com algum orgulho, ainda consegue fazer hoje,
tinha uma timidez na frente de estranhos,
como ainda tem.
Esperava a primeira neve,
como ainda espera até agora.

Quando a criança era criança,
Arremessou um bastão como se fosse uma lança contra uma árvore,
E ela ainda está lá, chacoalhando, até hoje.

Poema de Peter Handke

Bring the Boys Back Home




Susan Sarandon, Sean Penn e Jane Fonda, na passeata que juntou cem mil ontem em Washington






Bring the boys back home
Bring the boys back home
Don't leave the children on their own, no, no
Bring the boys back home
Bring the boys back home
Don't leave the children on their own, no no
Bring the boys back home.


Bring the Boys Back Home, de Roger Waters

sábado, 27 de janeiro de 2007

Ares do Rio



Teus seios,
os vi numa festa entre copos e luzes,
pessoas, olhares, sorrisos
são seios,
são seios pontudos, os bicos acesos,
Ares de Pão de Açúcar, de Cara de Cão
São Salvador, São Sebastião Glória! Glória! Glória!
Os brilhos,
eu via de longe e até hoje me lambem teus mares
batendo, batendo.
São brilhos,
são filhos das águas que entram na barra
lavam o Pão de Açúcar e o Cara de Cão
São Salvador, São Sebastião Glória! Glória! Glória!
Glória! Glória! Glória!
Eu vim de barca cantareira da ilusão
Pr'essa chapada te amar, timbrar meu coração
timbrar meu coração
e a claridade, que faz dessa cidade meu chão,
é meu mais puro devaneio, meu samba pauleiro
é o meu Rio de Janeiro
é o meu Rio de Janeiro
meu Rio.

Ares do Rio, de Paulo Baiano e Marcos Sacramento
Glória, pintura de Eduard Hildebrandt

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

O erro da carne



Minha mão desvairada
desastrada descabida
tinta-dependente
independente
do decente
pela frente
pelo avesso
minha mão presa
no excesso
procurada resposta
no começo
minha mão
cão sem dono
pinga sangue
chama carne
no meu corpo
único pedaço
de carne
que não posso
governar.

Juan Trasmonte (Todos os direitos reservados)
Foto de Stephane Réthóre

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Um pouco de Gentileza




Seguramente muitos do Rio se lembram daquela figura singular de cabelos longos, barbas brancas, vestindo uma bata alvíssima com apliques cheios de mensagens, um estandarte na mão com muitos dizeres em vermelho, que a partir dos inícios de 1970 até a sua morte em 1996 percorria toda a cidade, viajava nas barcas Rio-Niterói, entrava nos trens e ônibus para fazer a sua pregação. A partir de 1980 encheu as 55 pilastras do viaduto do Caju, perto da Rodoviária, com inscrições em verde-amarelo propondo sua crítica do mundo e sua alternativa ao mal-estar de nossa civilização. Não era louco como parecia, mas um profeta da têmpera dos profetas bíblicos, como Amós ou Oséias.


Como todo profeta, sentiu também ele um chamamento divino que veio através de um acontecimento de grande densidade trágica: o incêndio do circo norte-americano em Niterói, no dia 17 de dezembro de 1961, no qual foram calcinadas cerca de 400 pessoas. Era um empresário de transporte de cargas em Guadalupe e sentiu-se chamado para ser o consolador das famílias dessas vítimas. Deixou tudo para trás, tomou um de seus caminhões e colocou sobre ele duas pipas de 100 litros de vinho e, lá junto às barcas, em Niterói, distribuía-o em pequenos copos de plástico, dizendo: ''Quem quiser tomar vinho, não precisa pagar nada, é só pedir por gentileza, é só dizer agradecido''.
De José da Trino, esse era seu nome, começou a se chamar José Agradecido ou Profeta Gentileza. Interpretou a queima do circo como um metáfora da queima do mundo assim como está organizado, como um circo, pelo ''capeta-capital, que vende tudo, destrói tudo, destruindo a própria humanidade''. Segundo ele, devemos construir outro mundo a partir da gentileza, o que ele fez em miniatura, transformando o local num belíssimo jardim, chamado ''Paraíso Gentileza''. O quarto aplique de sua bata dizia: ''Gentileza é o remédio de todos os males, amor e liberdade''. E fundamentava assim: ''Deus-Pai é Gentileza que gera o Filho por Gentileza. Por isso, Gentileza gera Gentileza''. Ensinava com insistência: em lugar de ''muito obrigado'', devemos dizer ''agradecido'', e ao invés de ''por favor'', devemos usar ''por gentileza'' ,porque ninguém é obrigado a nada e devemos ser gentis uns para com os outros e relacionarmo-nos por amor e não por favor.


Não é exatamente disso que o Rio de Janeiro está precisando? Já dissemos nesta coluna que, junto com o princípio de geometria, a gentileza funda um princípio civilizatório, princípio descurado pela modernidade e hoje de extrema importância se quisermos humanizar as relações demasiadamente funcionais e marcadas pela violência.

A crítica da modernidade não é monopólio dos mestres do pensamento acadêmico, como Freud com seu O mal estar da civilização ou a Escola de Frankfurt, Horkheimer com seu O eclipse da razão e Habermas com o seu Conhecimento e interesse ou mesmo toda a produção filosófica do Heidegger tardio. O Profeta Gentileza, representante do pensamento popular e cordial, chegou à mesma conclusão que aqueles mestres. Mas foi mais certeiro que eles ao propor a alternativa: a gentileza como irradiação do cuidado e da ternura essencial. Esse paradigma tem mais chance de nos humanizar do que aquele que ardeu no circo de Niterói: o espírito de geometria, o saber como poder e o poder como dominação sobre os outros e a natureza.



Texto de Leonardo Boff para o Jornal do Brasil.
Eu tinha vinte anos e era a primeira vez que ia sozinho pro Rio. Viajava de carro com os meus amigos cariocas e atravessando o centro da cidade, um dos meus amigos falou "olha o Gentileza aí". O Fernando que ia dirigindo disse "você precisa conhecer o Gentileza". Parou o carro e fomos ao seu encontro. Ele me deu a mão e falou pra gente: "Usem gentileza". Um dos amigos falou, quando voltávamos pro carro "Esse é um velho maluco que anda pregando pelas ruas". Naquele momento, com a minha capacidade de assimilação no limite, pensei que fosse mesmo mais uma das figuras que a gente pode encontrar numa esquina qualquer do Rio.
Pois é, faz falta um pouco de Gentileza.